
Ainda sobre Cazuza...eu não poderia de deixar de postar esse incrível texto da
jornalista Martha Medeiros. Concordo com ela e assino embaixo.
"Tem circulado pela internet um texto assinado ora por um ‘pai anônimo’, ora por uma ‘mãe anônima’, mas pouco importa. É o relato de uma pessoa escandalizada com o filme sobre Cazuza. Entre outras coisas diz: “é estarrecedor: as pessoas estão cultivando os ídolos errados”. E justifica: “reverenciar uma marginal como ele é inadmissível (...) a morte de Cazuza foi conseqüência de sua educação errônea” Esses trechos bastam para dar uma idéia do conteúdo. Já recebi várias cópias deste texto e aqueles que me enviam sempre perguntam: “Não acha que é um ponto de vista interessante?”
É uma visão limitada, atrasada e preconceituosa. Se fôssemos admirar apenas os trabalhos de bons moços, teríamos que ignorar Oscar Wilde, Chet Baker, William Burroughs, Janis Joplin, Eric Clapton, Billie Holiday, Kur Cobain, Pablo Picasso, Jack Kerouac, Ernest Hemingway, pra citar apenas alguns do nomes de uma longa lista de alcoólatras, viciados em drogas, pervertidos, egocêntricos, petulantes, loucos e geniais.
Não é preciso ser doidão pra realizar uma grande obra, há inúmeras pessoas talentosas que vivem de forma regrada, mas há que se respeitar aqueles que necessitam ser livres e que não estão prejudicando ninguém. Liberdade não combina com convenções. A liberdade é politicamente incorreta, a liberdade é personalista, a liberdade não se veste bem, não tem bons modos, não liga para o que os outros vão dizer. Ser livre tem um ônus que poucos se atrevem a pagar. Cazuza pagou com músicas belas e viscerais, que comovem até hoje, e que possivelmente não teriam sido criadas caso ele fosse um menino temente a
Deus com um emprego burocrático de segunda a sexta. Nada contra os tementes a Deus com empregos burocráticos, eles dão bons pais de família, bons médicos, bons carteiros e bons maridos, mas que não se queira exigir de um artista este tipo de comportamento.
Não há razão pra temer os desiguais. O autor anônimo do texto diz, a certa altura, que ficou horrorizado porque sua filha assistiu o filme e foi preciso conversar muito com ela para explicar que usar drogas, beber até cair e participar de bacanais não são coisas certas. Concordo que não é um estilo de vida dos mais saudáveis, porém entre o certo e o errado há muitas outras coisas, com dizia o próprio Cazuza, e não podemos fingir que o mundo é composto apenas de super-heróis imunes a fraquezas, a curiosidades e a ímpetos que nem sempre estão dentro dos padrões.
O que importa na vida de um artista é sua arte, é o que ele deixa de legado. Biografias, filmadas ou escritas, servem apenas para entender a época em que ele viveu, quais eram seus conflitos, qual a fonte de sua inquietação. Ao se contar uma história de vida, seja ela qual for, humaniza-se o personagem. Será que foi essa explicação que a menina adolescente recebeu depois de assistir o filme, ou será que ela recebeu uma bela lição de maquineísmo? Meu caro anônimo, há muitas formas de se ministrar uma educação errônea. Citar Cazuza como ídolo inadequado é de uma miopia desoladora. O que dizer de vários ídolos pré-fabricados que nada acrescentam artisticamente, que não emocionam nem instigam, apenas vendem sandalinhas? Deixemos os artistas – os verdadeiros, os realmente inspirados – experimentem a desobediência, testem seus próprios limites, busquem a vida nos buracos sujos onde ela se esconde. Todos aqueles que pintam, dançam, cantam, escrevem, e atuam com as veias saltadas, com sangue quente, com a alma aos gritos, estão na verdade ajudando a revelar a nós mesmos, cidadãos acima de qualquer suspeita.
Só p’ra citar outros maravilhosos marginais que valem um milhão de Sandys, Juniores, Xuxas, Vanessas e outros lixos insípidos: Raul Seixas, Jimi Hendrix, Ramones, David Bowie, Martin Luther King, The Who, Marlon Brando, James Dean, Salvador Dali, Luis Buñel, Secos & Molhados, Artur Rimbaud, Paul Verlaine e milhares de outras pessoas que eu gostaria de ter conhecido.
Tenho pena dessa adolescente que provavelmente vai ter que passar por experiências inalienáveis a todas as pessoas dessa idade sem o apoio fraterno e sincero dos pais castradores e de pensamento lógico e emocional limitado".












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